Arteterapia além das palavras: cura através da expressão criativa
- Agatha Vieira

- 19 hours ago
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Costumamos imaginar a cura como algo que acontece apenas por meio das palavras: sentar, explicar, responder perguntas, refletir. Mas às vezes, ela começa em outro lugar — em cores, texturas, em imagens que sabem o que sentimos antes mesmo de nós. É aí que a arteterapia começa.
Quando as pessoas ouvem falar de arteterapia, a primeira coisa que geralmente perguntam é:
“Mas… eu preciso saber desenhar?”
É uma pergunta simples e que parece inofensiva, mas que carrega algo grande — o medo de fazer errado, o medo de ser julgada, o medo de não ser “criativa o suficiente”.
A arteterapia dissolve tudo isso com delicadeza.
O que aprendi — tanto pessoal quanto profissionalmente — é isto: arteterapia não é sobre talento. É sobre ser humano. Não é sobre o que você cria. É sobre o que se move dentro de você enquanto você cria.

Então, afinal, o que é Arteterapia?
Arteterapia é uma forma de psicoterapia que utiliza a criação visual — como desenho, pintura, colagem e escultura — como meio para explorar emoções, memórias e experiências internas.
Ela acontece dentro de uma relação segura e confidencial com uma arteterapeuta qualificada.
Às vezes as palavras vêm com facilidade. Às vezes, não vêm de jeito nenhum. A arteterapia oferece outra linguagem — uma que não exige que você explique ou justifique o que sente.
Como descreveu a arteterapeuta Edith Kramer, a arte permite que as emoções tomem forma sem sobrecarregar a pessoa que as vivencia (Art as Therapy).
Na arteterapia, a imagem fala primeiro. A reflexão vem depois.
Um impulso humano ancestral
Muito antes de a arteterapia se tornar uma profissão, os seres humanos já usavam imagens para sobreviver, lembrar e curar.
Das pinturas rupestres aos ícones religiosos, das máscaras rituais aos objetos simbólicos, a criatividade sempre nos ajudou a dar sentido à vida — especialmente quando as palavras não eram suficientes.
Na década de 1940, o artista britânico Adrian Hill cunhou o termo art therapy enquanto se recuperava de tuberculose. Ele percebeu que desenhar o ajudava a lidar emocionalmente com a doença e o isolamento. Ao mesmo tempo, psicólogos e psiquiatras começaram a reconhecer que as imagens podiam expressar conteúdos inconscientes — especialmente em crianças e em pessoas com dificuldade de verbalizar suas experiências.
Na Europa e no Reino Unido, a arteterapia desenvolveu fortes raízes psicodinâmicas e hoje é apoiada por instituições profissionais como a British Association of Art Therapists (BAAT) e a European Federation of Art Therapy (EFAT).
Mas uma das histórias mais poderosas sobre a arte como cura que eu conheço e amo, vem do Brasil
Nise da Silveira: quando a arte se tornou um ato de respeito
No Brasil de meados do século XX, a psiquiatra Nise da Silveira desafiou tudo o que a prática psiquiátrica representava na época.
Enquanto o eletrochoque, a contenção física e o isolamento eram comuns, Nise escolheu outro caminho. Ela abriu ateliês dentro de hospitais psiquiátricos e ofereceu aos pacientes tinta, argila e espaço.
Ela não via as imagens como sintomas a serem corrigidos, mas como expressões significativas do mundo interno do paciente, ou como ela gostava de chamar, cliente.
Influenciada por Carl Jung, acreditava que quando as pessoas eram tratadas com amor, dignidade e curiosidade, a criatividade poderia reconectá-las à vida. Seu trabalho levou à criação do Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro — um arquivo vivo de arte criada em condições de profunda vulnerabilidade.
Embora Nise da Silveira ainda não seja amplamente referenciada nas formações europeias em arteterapia, a sua filosofia vive no coração da prática: respeito, escuta e confiança na expressão.

Como encontrei a Arteterapia — ou como a Arteterapia me encontrou
Para mim, a arteterapia chegou durante um período de profunda transformação interna.
O ano de 2025 foi um ponto de virada. Comecei a me sentir desconfortável com a minha realidade — inclusive com o meu caminho profissional. Desde 2022, eu estudava feridas emocionais, temperamentos e desenvolvimento pessoal, tentando me compreender com mais honestidade. E em algum ponto dessa busca, a arteterapia apareceu.
Eu não mergulhei de imediato num curso acadêmico. Eu pesquisei antes. Queria entender o que aquilo realmente significava antes de me comprometer com um mestrado — um passo necessário para atuar clinicamente.
Então eu (ou o algoritmo) encontrei um curso introdutório. Só de ler sobre ele, senti arrepios. Um “sim” claro no corpo. Havia apenas um probleminha: era em outro país. Por conta de algumas circunstâncias, minha mente protestou com frases como: “complicado demais agora”, “não é o momento”, “talvez mais tarde”. Mas algo mais profundo dizia: “vai!”.
E eu fui. E sou imensamente grata por ter me dado essa chance. ❤️

Barcelona: onde tudo fez sentido
Em julho do ano passado, viajei para Barcelona para participar de um curso introdutório de arteterapia na Metàfora. O que vivi lá me transformou.
A arteterapia não era sobre criar algo bonito. Era crua, honesta, viva. Era o subconsciente falando por meio da cor, do gesto e da forma.
Criamos, refletimos e compartilhamos. E eu senti — na minha própria jornada de cura — que quando expressamos, curamos. E quando nós refletimos sobre o que expressamos, nós crescemos.
Aprendemos com workshops de estudos de caso reais, do impacto da arteterapia em crianças autistas até pessoas idosas vivendo com Alzheimer.
Tivemos aulas práticas também e criamos bastante. Na hora de compartilharmos os trabalhos, cada imagem era recebida com cuidado e respeito. Sem certo ou errado. Apenas verdade.
Em alguns moments, me lembrei da faculdade de design — de um professor rasgando o trabalho de um aluno na frente da turma toda 💔. Na arteterapia, era o oposto disso. Havia cuidado e sensibilidade. Honra por aquilo que vinha de dentro de cada pessoa.
Da experiência ao caminho
Depois de retornar de Barcelona, a decisão ficou clara: eu precisava continuar nesse caminho de aprendizado. Hoje sou estudante de pós-graduação em arteterapia na Metàfora.
A jornada para me tornar uma arteterapeuta qualificada ainda levará alguns anos, mas o impacto do que venho aprendendo já é profundo em mim.
A arteterapia transformou a forma como eu crio, ensino e acompanho outras pessoas. Ela se tornou parte essencial da minha própria jornada de cura e uma lente através da qual vejo a criatividade não como performance, mas como cuidado.
Essa perspectiva estará presente em todas as aulas, mentorias, conversas e projetos que eu tocar daqui para frente.
Arteterapia vs. “a arte é terapêutica”
Nesse ponto, uma pergunta surge naturalmente.
Se fazer arte e/ou experienciar arte já pode ser curativo… o que torna a arteterapia diferente?
Sim, criar arte pode ser profundamente terapêutico. Desenhar, pintar, escrever ou criar manualmente pode acalmar o sistema nervoso, trazer alívio e gerar conexão consigo mesma.
Mas a arteterapia é mais do que o ato de criar. E inclusive uma sessão de arteterapia pode ser desconfortável.
A grande diferença está na relação terapêutica, na responsabilidade ética da terapeuta e na contenção emocional que permite que conteúdos mais profundos emerjam com segurança. A arteterapia acontece dentro de um enquadre profissional, onde o cuidado, os limites e a reflexão são tão importantes quanto a criatividade.
As imagens não são analisadas ou interpretadas de fora. O significado é explorado aos poucos, de forma colaborativa, sempre em diálogo com quem criou.
Para quem é a Arteterapia?
Outra pergunta comum é: a arteterapia é só para um tipo específico de pessoa? A resposta simples é não. Não existe um “perfil” de cliente de arteterapia.
A arteterapia é praticada com crianças, adultos e pessoas idosas; com pessoas neurodivergentes; com quem viveu traumas, migração ou perdas; e com pessoas criativas lidando com burnout, autossabotagem ou perda de direção.
Você não precisa ser artística. Você não precisa saber o que dizer. Você só precisa da disposição de estar presente — exatamente como você é.
Por que o espaço e os materiais importam
A arteterapia acontece dentro de um ambiente cuidadosamente sustentado. A constância do tempo, do espaço e dos materiais cria uma sensação de segurança — e é a segurança que permite que emoções mais profundas surjam sem transbordar para a vida cotidiana.
A sala ou estúdio se torna um recipiente.
E dentro desse espaço, os materiais falam sua própria linguagem.
Os lápis costumam oferecer controle e precisão
As tintas convidam à emoção e ao movimento
A argila conecta o corpo à sensação e ao aterramento
A colagem permite fragmentação, brincadeira e reconstrução
Muitas vezes, o material que a pessoa escolhe já carrega informações — muito antes de as palavras chegarem.
Um convite silencioso
A arteterapia nos lembra que a cura não precisa ser barulhenta, dramática ou perfeita.
Às vezes, ela começa com um traço. Às vezes, com uma cor. Às vezes, com a permissão de simplesmente existir.
E muitas vezes, esse começo silencioso não é um fim — mas uma abertura. Uma abertura para uma escuta mais profunda, uma relação mais gentil consigo mesma e um vínculo mais honesto com a criatividade.
Se essa forma de trabalhar ressoa em você — seja por curiosidade, por um processo pessoal de cura ou pelo desejo de apoiar outras pessoas — te convido a ficar aqui por perto.
Através do meu trabalho criativo, das mentorias e dos estudos em arteterapia, estou aprendendo a criar espaços onde a expressão é recebida com cuidado, não com julgamento.
Você não precisa ter respostas para começar. Você só precisa da disposição de dar o primeiro passo.
Como seria se permitir e dar um pequeno passo em direção à expressão criativa, apenas para ver o que ela pode te revelar?

Por Agatha Vieira
Estudante de Pós-Graduação em Arteterapia na Metàfora, Designer Gráfica & Ilustradora
Referências
British Association of Art Therapists (BAAT): www.baat.org
European Federation of Art Therapy (EFAT): www.arttherapyfederation.eu
Kramer, E. Art as Therapy
Dalley, T. & Case, C. The Handbook of Art Therapy
Silveira, N. da – Images of the Unconscious





















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